Ela olhava para tela do computador, os olhos fixos naquelas linhas tão afiadas. A respiração começava a falhar, aos poucos, como se o último fio de ar se esvaísse de seus pulmões comprimidos e a garganta se fechava para nunca mais abrir. Não podia saber se o que escorria de seus olhos eram realmente lágrimas, na verdade não sabia de nada. Por um instante infeliz seu corpo deixara de responder aos seus comandos, o lábio inferior tremia a cada tentativa de colocar um pouco de ar dentro de si... Já não importava tanto, realmente, respirar ou não, para que o esforço? Era inútil, a tentativa mais inútil de toda sua vida. E a vida mais inútil de toda sua tentativa.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
S
sábado, 15 de novembro de 2008
A parte sem o todo
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Devaneio
O som balançava pelo quarto, bem alto, não se importava com os vizinhos, estava deitada na cama viajando pela sua cabeça, pensando em coisas além da realidade de olhos fechados e sentidos completamente aguçados. O calor seria inebriante se não fizesse sua pele melar com o suor, não gostava da sensação, não quando estava sozinha. Sozinha preferia o ar fresco, a pele bem lisa e a respiração calma, não ofegante como se cada bufada de ar em seus pulmões fosse uma faca fina em brasa. Por mais que o calor a fizesse ter ímpetos de se mover pela cama, rolar pelas cobertas perfeitamente esticadas na busca de uma posição menos incomoda nesse dia ela não tinha forças. Estava esgotada e entregava todas sua disposição restante para o som que invadia sua cabeça e remexia seu interior com sensações novas, estranhas, feito ondas de adrenalina percorrendo cada milímetro de seu corpo. Não sabia mais o que era realidade e o que era a música bem tocada e perturbadora, não distinguia mais onde começava seu corpo e onde começava o ar pesado e úmido de seu quarto, sabia apenas que, se ficasse deitada, em alguma hora de seus devaneios levitaria na espuma de suas fantasias. Era a voz, ou as mãos, ou ambas, de algum modo aqueles acordes e aquelas palavras ritmadas estavam deixando-a em um estado diferente do esperado quando se ouve uma música, sua respiração seguia a melodia e os lábios dublavam em silêncio. O calor potencializava a sensação de estar perfeitamente acompanhada. Deixou-se levar pela respiração, pela letra, os sussurros, suspiros, agudos, velozes, tudo foi caindo no êxtase fulminante, seu peito movia-se rapidamente, estava ficando sem ar. Suava muito, provavelmente já havia molhado a cama, as roupas... As roupas! Queria tirá-las todas, sentia-se presa, impossibilitada de seguir as cordas, sua pele queimava. Apertou as pálpebras com mais força, soltou um grito surdo, um suspiro de alívio e apertou o play novamente.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
E...
Quando a vi ela andava sob os raios dourados do sol da manhã, seus olhos contemplavam o nada a sua frente e as folhas estalavam suaves com seus passos distraídos. Eram seus braços que dançavam no ar, seus cabelos que brilhavam no movimento constante... Era qualquer coisa além da compreensão de um observador, além do entendimento dos leigos. Simplesmente o êxtase de uma epifania qualquer. E seu corpo dançava com a música que supostamente ouvia, seus olhos miravam o profundo de sua mente e os lábios dublavam uma poesia inconcebível. E fugia da realidade aquela figura singela e perturbada. Por fora tão serena e nos seus olhos tão soturna, era o contraste de seus impasses. Era apenas a música que fluía com o vento.
domingo, 5 de outubro de 2008
Bastava o olhar e o silêncio
Eu não queria abandoná-lo, nunca tal idéia passara pela minha cabeça... Vivíamos num silêncio mútuo desde o começo, mas não nos atrevíamos a mudar o curso das coisas por maior que fosse o nosso carinho. Mas o que eu digo? Mal inicio e já rego de mentiras as poucas linhas que espremo da minha memória. Não, não vivíamos, eu vivia. Eu vivia em um silêncio absoluto. Eu e somente eu, ninguém mais. Ele, bom, ele existia, mas comigo não vivia, para mim apenas existia em toda sua santidade, existia longe, além das minhas mãos e distante de mais dos meus sentimentos mais puros.
Eu não queria abandoná-lo, não podia deixar escapar metade da minha vida. Eu vivia em um silêncio absoluto, isolava-me de todas as possíveis relações humanas, abominava constantemente as conversas, limitava-me apenas a olhar. E o gelo foi se hospedando dentro de algo que ouso chamar vontade, frio e rigidez, nada mais. Nunca me passou pela cabeça a idéia de abandoná-lo, contudo nada fazia eu para mudar a real situação, eu era um ser seco e mudo e por mais que o adorasse eu não sabia como fazê-lo entender, eu não sabia como falar. Ao meu desejo bastava apenas o olhar e silêncio.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Batalha Mental
domingo, 21 de setembro de 2008
Nada
Seus olhos fugiram pelo horizonte
No azul claro de qualquer sonho
Naquelas linhas tortas
Simples e sãs.
E seus lábios cantavam alguns versos
Pequenos, tristes e simples.
Suas mãos congelavam
Ao tocar nada.
Nada, resultado daquele sonho,
Nada, paisagem de sua vida,
Nada que então procura
O olhar que foge.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Como uma rosa frágil na neve
Os olhos sem movimento, a boca vermelha como rosas em primavera, o rosto virado para o Oeste, como se procurando algo diferente de tudo nesse mundo, sem movimentos salvo o vento leve desembaraçando seus cabelos. O céu pintado de vermelho, como um vaso de sangue derramando seu conteúdo, o sol adormecendo aos poucos, o fim do dia.
Suas mãos estavam apoiadas na grade da varanda, ajeitadinhas, a direita sobre a esquerda, vez ou outra virava para olhar se alguém vinha do lado de dentro do quarto. Ninguém. Não sabia há quanto tempo estava olhando para o por do sol, parecia tudo tão eterno! Pensava em todos os conhecidos, na família, nos momentos. Não via o motivo de tal fuga, ou de tal esquecimento, pegava-se tentando lembrar-se de algo acontecido em determinado dia, mas não conseguia, era tudo névoa!
O ar é tão frio e seco, congela minhas mãos, não consigo tirá-las dessa posição... Estranho, parece que estou a tanto tempo aqui, essa cena não muda, o dia não termina. Ai! Por que dói?
Afastou todas as dúvidas da mente, agora começava a se lembrar, apoiou as mãos na barriga, era uma dor muito forte, curvou-se desesperadamente, buscou apoio nas grades, avistou o abismo. Passos, gritou por socorro. Passos, ecos vindos de dentro do quarto escuro. Passos, se aproximando cautelosamente.
O que eu fiz?
Tudo ficou branco a dor ainda não passara por completo, levantou-se com certa dificuldade, era tudo neve, frio. Caminhou encurvada na imensidão branca. Silêncio nem vento, nem suspiros. Seus pés doíam, seu corpo pedia abrigo, sua boca pálida queria vinho, seus olhos cinzentos e sem movimento precisavam descansar. Silêncio. Lágrimas escorriam pela face. Não se conformava, não podia ser verdade, onde estava? Ao longe um sobrado, simples, no meio do branco infinito, com as portas abertas. Entrou, subiu as escadas segurando firmemente no corrimão, a dor já não existia, Abriu a porta de um quarto, uma cama e uma mesa com uma garrafa de vinho. Descansou os olhos, bebeu o vinho, a cor voltava à sua face.
Não posso aceitar...
Lágrimas escorriam, sua alma não aceitava. Avistou a porta da varanda, aos poucos se aproximou olhar uma paisagem sempre é bom. No Oeste o sol vagarosamente deitava-se no rubro horizonte do crepúsculo.
sábado, 6 de setembro de 2008
Pedra
Sou um ponto, ou melhor, uma linha curva semelhante a uma pálida bengala infestada de cupins. Grande parte da minha vida deixo meu corpo leve e comprido esticado em um fino colchão imerso na penumbra de um cubículo, cuja única janela é um espelho de corpo inteiro fixado na parede em frente a minha cama. Nas horas que os dedos dourados do sol iniciam sua batalha para penetrar no concreto de meu aposento, algo dentro de meu crânio desperta, fazendo minhas pernas curvas e cansadas rastejarem até a janela refletora.
A imagem que se apresenta aos meus olhos nublados repugnaria qualquer sorriso supérfluo, a barba mal feita, despontando teimosa na tez anêmica, faz do meu rosto uma manta áspera e parcialmente suja, clamando por uma camada delicada de água límpida. Minha expressão facial de nada é melhorada pelos meus lábios secos e finos, como um corte de navalha disforme, algo neles me lembra gotas tranqüilas e ácidas que corroem aos poucos a superfície, que tocam e deformam as palavras por eles faladas. Um aspecto observador pode resumir esta decadente face tímida tão enclausurada em si mesma que zomba da minha covardia social toda manhã.
Durante meus raros passeios pelos mantos de asfalto, percebo que olhares rápidos e doloridos pousam sobre minha figura doente. Poucos, porém, detêm-se mais aos detalhes rudes de meu corpo, como o nariz adunco e as mãos grandes de mais, atrapalhadas na dança do caminhar. São olhares em geral enjoados, não muito diferentes daqueles lançados a mim pela família e amigos (praticamente inexistentes), creio que fui um erro, um mau projeto da mulher que me jogou ao mundo.
Meu melhor momento é a noite, de preferência sem lua, em que o retrato mais comum em meu cubículo é um homem de idade razoável, com um nome bárbaro, cantarolando, em um sopro adocicado e inebriante, uma sinfonia qualquer, sentado em uma tosca escrivaninha. Em cima desta, uma folha em que rabisco, com traços leves, os distúrbios latentes e desejos comprimidos de um desiludido que anseia um dia ser dissecado. Porém é na forma fria de uma pedra que deposito todas as minhas esperanças físicas.