quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Teste

oi

Nada


Eram olhos negros, como contas refletindo a noite sem estrelas. Vagavam na imensidão de meus sonhos já há algumas noites, sem rumo, sem sentido, apenas pairando no teto onírico como dois sóis inversos. Não mudavam em nada meu sonhar, nenhuma influência importante exerciciam nas histórias fantásticas de minha mente, existiam apenas por exsistir ou como um presságio de algo que eu talvez nunca viesse a entender.

Ao acordar deixavam pequenas marcas nos cantos de meu campo de visão, nada que me incomodasse ou impedisse de enxergar. Estavam lá, quietos e silenciosos, tão negros quanto podiam ser e ao mesmo tempo quase invisíveis pelo hábito. Lembrava deles apenas quando direcionava minha visão para alguns dos lados em que estavam. Era rápido, indolor, uma cutucada incômoda na normalidade e mais nada.

Nunca pensei em procurar algum médico para examinar o que eram essas marcas escuras na minha visão periférica. Estava bem claro para mim que eram reflexos dos meus sonhos. Nada de mais, assim, uma coisinha sem importância. Para que gastar dinheiro e horas em filas de espera? Não seria nada, nada poderia ser feito para solucionar, apenas esperar. Era isso que diriam os médicos, era disso que estava convencida. Seria isso que iria acontecer.

Então tudo estava sob controle, aqueles olhos negros não eram preocupantes, pairavam em meus sonhos, atrapalhavam minimamente meu cotidiano. Nada com que me preocupar. Também não compartilhei com meus conhecidos esse fato peculiar, não via sentido algum em atormentar meus familiares e amigos com algo tão pequeno e banal, simplesmente desnecessário. Era tão desnecessário que vez ou outra, quando percebia os pontos negros, pensava quão ridículo soaria para meus amigos o relato de tal fato.

Houve épocas em que os olhos dominavam completamente minhas noites, do começo do sono até o final eles cresciam até tomar toda a cena e não restar nada senão uma cópia do universo sem luz. Nessas noites acordava assustada com idéias de que, talvez, não fossem tão banais assim esses olhos negros atormentadores. Minha visão turvava facilmente após esses episódios e minha preocupação, por apenas um dia ou dois, tomava dimensões palpáveis. Mas também isso passava logo e acabava tornando-se algo pequeno. Minha agilidade nas tomadas de decisões era falha perante a agilidade dos olhos negros retornarem a insignificância.

Passei anos e anos convivendo com essas idas e vindas, crescimentos e recolhimentos. Passei anos não me importando com algo que cada dia ficava mais presente por ser tão não importante. Posso contabilizar meses sem fim de justificativas para não me preocupar. E, no fim, posso perceber que tanta não preocupação tomou praticamente minha vida inteira. Agora os olhos são dominantes. Sempre presentes no meu sonho escurecendo a fantasia do repouso.

Assustadores, presentes. Dois sóis turvando minhas noites e diversos pontos negros salpicando meus dias. Não eram mais pontos discretos na visão periférica. Conviva agora com uma infinidade de pontos atrapalhando meu enxergar. Fica cada vez mais difícil fazer as tarefas do dia a dia, escrever, ler. Tudo exige muito esforço e dedicação. Não tenho mais coragem de cozinhar minhas refeições, tenho medo de me queimar ou me cortar. Há pontos cegos na minha visão.

E, nestes pequenos momentos em que me esforço suficientemente para tentar enxergar minha vida nitidamente, reflito sobre o não me preocupar. A insignificância tão justificada que cresceu assustadoramente em mim. Os pontos cegos. Os sóis. Os sonhos e as turbulências. O nada que encheu meu mundo, tomou minha vida. Fez de mim escrava de meus medos. Acorrentada em pequenas banalidades que deixei tomarem muito tempo do que me era precioso. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Fractal


Todo dia começava do mesmo jeito, levantava da cama com os pés doendo ao tocarem o chão frio. Esticava o corpo, alongava os braços e respirava fundo. Em pé, ao lado da cama, checava cada móvel do seu quarto contando mentalmente cada objeto ao seu redor. No banheiro escovava os dentes em sua disciplina militar, penteava os cabelos com preguiça e encarava seu rosto por alguns segundos. Nessa hora apreciava algumas rugas novas e outras mais antigas, cada ruga uma marca de suas preocupações. Algumas fúteis, outras profundas. Ultimamente tentava ser como a ostra, transformando os grãos invasivos em lindas pérolas. Queria a metamorfose de seus problemas, de suas preocupações.

Assim como começara, o dia seguia sem grandes mudanças. A mesma rotina rígida, o preparo do café sempre preto, sempre amargo. As torradas com manteiga, a vilã do coração! Mas seu coração já sofria de mais com sua infelicidade, uma manteiga a mais não danificaria tanto suas mazelas coronárias. E que mazelas! Como podia ser cruel a rotina, a incerteza, a infelicidade! Algo ainda esmagava seu peito, espremia seu cérebro, mas não podia fugir dos seus trilhos, não podia descarrilhar. Não, descarrilhar nunca.

Após o café sempre seguia rumo ao trabalho, algo simples, compatível com sua posição na sociedade. Caminhava calma pelas ruas, como se o caos urbano ofuscasse um pouco seu microcosmo perturbado. Na rua, onde ninguém podia ver seu rosto, no meio de tantos e ao mesmo tempo só, era apenas um número, umas estatística. Quantas pessoas atravessavam a rua, quantas pessoas caminhavam pelas calçadas, quantas pessoas fugiam de si mesmas. Era nesses números que entrava, era aí que tinha algum significado.

Perto de anoitecer voltava para casa, tomava um banho bem quente, as vezes ficava um pouco mais na banheira pensando na gama de coisas que poderiam ter sido. As vezes imergia na água e prendia a respiração, era como se o mundo suspendesse. Nesse momento tinha paz, no silêncio da água, na escuridão de suas pálpebras. Nesse momento estava dentro de si e a visão não era tão horrenda como no espelho.

Enfim chegava a hora de deitar, nada muito requintado, uma taça de vinho para chamar o sono, o estômago vazio para chamar os pesadelos. As roupas frouxas de dormir, o desalinho dos cabelos rebeldes. A sua melhor visão. O colchão duro sempre trazia algum conforto, alguma regularidade, sempre tão necessária para dormir, para sonhar o não sonho de sua vida. Ao fechar os olhos via-se acordando. Levantando da cama com os pés doendo ao tocarem o chão...

sábado, 31 de agosto de 2013

Momento

Aquele era o seu melhor momento, no começo do dia, ainda sonolenta, sentada no espaço em frente a janela. Olhando para o dia, tomando seu chá. Naquele momento ela era apenas ela. Não era a escritora ou a mulher gentil, não era a filha ou a neta, tampouco a namorada. Não tinha uma identidade, apenas o momento de estar lá contra a luz matutina brilhando suavemente meu bom dia. Uma pintura viva. Talvez minha. Mas acho que não, naquele momento ela era apenas de si mesma ou do mundo inteiro.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Palavras

Apaixone-se pelas palavras!
Elas não acabam, não cansam,
Não decepcionam.
Apaixone-se pelas palavras
Ou transforme o objeto de seu desejo
Em belas frases rimadas.
Apaixone-se pelas palavras e veja
Sua paixão mudar com o pensamento,
Voar no vento, ao seu contento.
Apaixone-se pelas palavras,
É simples, é fácil.
É tátil.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

De repente

De repente acordei pensando em você, o que é estranho já que se passou muito tempo desde a última vez. Peguei minha mente refazendo nossos planos há muito esquecidos, lembrando de nossas risadas e  do nosso silêncio de cumplicidade. Entretanto não pensei em ligar, acho que não valeria a pena, depois de tantos anos você ainda seria capaz de reconhecer minha voz? Pois eu lembro que não precisava identificar-me, apenas dizer olá.

Enquanto isso minha mente racional lutou para não dar continuidade a esses pensamentos. Alguns argumentos, confesso, foram um tanto convincentes. Um deles, por exemplo, afirmava que, se não deu certo, foi uma maneira do universo congelar o que era belo antes que ficasse podre. Mas isso, sinceramente, não convenceu meu outro lado que insistia em sentir saudades naquela manhã gelada.

Acho que sonhei com você e tentei encontrar seu corpo ao meu lado, sentir seu cheiro no travesseiro, talvez foi isso. E então, esses gestos, antes tão habituais e agora tão vazios, desencadearam a cascata de lembranças do tempo em que você era presente em minha vida. Mas será que sua presença era assim tão boa? Ou essas sessões de nostalgia tem fundamento apenas no meu universo particular? Será que éramos realmente um casal, ou apenas um par de amigos?

Honestamente, não sei. Sei apenas que seu nome acordou nos meus lábios e, sem qualquer motivo, senti falta das suas palavras. Mas não adianta, nosso tempo passou, ou assim querem que seja. Se houve ou não um motivo divino de preservação universal apenas os deuses (se é que esses existem) saberão. Para mim basta lembrar, com carinho, dos dias que você viveu em minha vida.
Quero afogar-me em seus lábios
Beber de seus beijos e envolver
Minhas mãos em seus cabelos.
Movimentar-me no seu ritmo
Seguindo sua música doce
Sua voz em meus ouvidos
Suas mãos despindo-me
De todas as feridas
De minha alma.

Nossos corpos foram encaixados
No princípio de tudo e a dor é
Insuportável quando estamos
A uma distância maior que
Um sussurro de prazer.
Não quero mais, nunca
Esfriar-me de seu calor
E afastar-me tanto
De sua névoa.

Isabella

Onde está Isabella?
O que foi feito dela?
Está fechada em seu quarto
Olhando pela janela.

Onde está Isabella?
Vagando em suas lembranças,
Mendigando esperanças!
De seus sonhos sentinela.

Será que fugiu Isabella?
De sua realidade cruel,
Dos seus planos insanos,
Buscando a cura de sua mazela?

Não volte Isabella!

domingo, 21 de julho de 2013

Sonhos

Deixa-me apertar teu sono em minhas mãos
E moldar teus sonhos conturbados
Na argila clara de meu corpo.

Deixa-me derramar minha voz calma
Nas ondas do mar onírico e revolto
Que te envolve enquanto dormes.

E cantar-te cantigas de aventuras e amor,
Tecendo-te quadros na areia de Morfeu
E embalando-te em meus braços.

Deixa-me suspirar uma vez,
A última e então irei para
Sempre e longe de ti.

sábado, 20 de julho de 2013

Não há

Não há mistério que não mereça ser resolvido,
Não há dor que não mereça ser curada.
E não há lembrança, mesmo que devassa,
Que mereça ser esquecida ou apagada.

Não há ferida que não mereça ser fechada
Ou sonhos que não mereçam ser sonhados.
E não há luz que venha de quaisquer olhos
Que mereça ser tragicamente extinta.

Voando no limbo das ações passadas
E mesmo no das ações passivas imponentes,
Não há razão qualquer ou motivo distante
Que justifique, satisfatoriamente, existir

Uma paixão, mesmo que vã, que não mereça
Nem por um segundo, ser lembrada.
Ele tinha seus olhos quando era jovem, lembro-me bem da expressão, dos lábios apertados enquanto pensava seriamente sobre um assunto. Ele tinha seus cabelos rebeldes de qualquer jeito jogados ao lado do rosto, algumas vezes confuso. Ele tinha suas qualidades e seus defeitos provenientes da juventudo agitada e suas mãos, estranhamente grandes, porém graciosas, que envolviam minha cintura e desmontavam-me em sentimentos diversos.


Seus olhos, sua boca, seu sorriso. Seu semblante acolhedor no momento de desespero. As notas de uma sinfonia perfeita esperando-me no leito quente de seu abraço. Seu beijo de suave sabor arrebatador com seu perfume de saudade. Onde estão seus olhos, janelas de sua alma de outrora? Onde estão suas mãos tão quentes, tão cheias de ternura? Um suspiro do passado na incerteza do futuro.

Opcional

Adormecida dormente no limbo do sorriso ausente
Com os olhos baixos e os cabelos em cachos
Suave como a onda pequena avançando,
Avançando nas suas areias pegajosas
Não há mais espera consistente, só
O cálculo errôneo do meu risco
De não tentar mais do que o
Possível, previsível, seguro.
Presa na corrente firme
Da rotina disfarçada
De cordeiro manso.
E apenas o resto
A casca seca!
Apenas o
Que me
Tornei.
Só.

terça-feira, 1 de março de 2011

Reflexão

O que eu sou para ti? O corpo inerte ao teu lado na cama, ou o peso morto de uma relação estagnada? Seria eu o ronco de fome e desejo de tuas entranhas ou apenas a cócega insossa da rotina? O que te dizem meus olhos molhados e vermelhos quando te encaro fixamente? Eu não saberia as tuas palavras, tampouco teus pensamentos, sequer reconheço meus olhos quando os dirijo a ti, a tua névoa existencial, teu vazio conjugal. Minha pequena semente que brota do árido, o que há em teu coração? O que devo fazer para atingi-lo? Come-lo ao café da manhã e regurgitá-lo ao entardecer, sentir enfim os sentimentos tão fracos, falhados na melodia de nossas vidas. Eu não sei o que esperas de mim e também não entendo o que espero de ti. Tuas promessas esfriaram, choveram para longe e lavaram o nobre sentimento que te cabia tão perfeito dentro de mim. Minha cócega insossa, desta rotina acredito que não preciso mais.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sobre Pontes e Carros

Sentada no banco de trás do carro de seus pais os dedos pequenos e impacientes grudavam no vidro frio, estavam rodando há bastante tempo, a pequena perdida em seus pensamentos e os pais perdidos nas ruas pintadas de crepúsculo daquela cidade imensa. Ela nunca soubera exatamente a magnitude daquele conjunto de cimento que pulsava dia e noite nos jornais, nas rádios e no cotidiano de cada pessoa que por lá passava, sabia, sim, que era uma grande cidade, conhecida e admirada por muitos, temida por alguns e objeto dos sonhos de indefinidas pessoas. Todos os rostos que rapidamente passavam pelo seu vidro pareciam-lhe anônimos, vazios e desconfortavelmente apressados, não conseguia entender como alguém conseguia viver naquela adrenalina eufórica, provavelmente sofriam do coração, pelo menos era o que acreditava baseando-se nas sábias palavras de seu avô que pregavam que uma vida agitada e viciante acabava por maltratar este órgão tão vital. O avô já havia morrido há alguns anos, deixara nela uma ferida estranha mista de saudade e tristeza, entretanto sua pequena cabeça só entenderia mais tarde a real dor que esta lhe provocara.


Sobre lágrimas sabia um pouco, entendia que mamãe chorava quando brigava com o pai, figura sempre autoritária perante os outros, mas perto de si tão sorridente e gentil. Ela pensava que, talvez, se sua mãe visse seu pai mais vezes como ela via, não chorasse tanto. Gostava do rosto dele quando a colocava para dormir, nessas horas ele a lembrava o avô, sem máscaras, o semblante suave dava-lhe um pouco de sono que se consolidava quando ele lia, ou simplesmente falava, algumas histórias de lugares distantes e frios, ambos gostavam muito de lugares frios. Porém ela percebia que perto da mãe ele se armava com muitas camadas das quais não conseguia tirar um significado, estava sempre tenso, meio bravo e a voz não era aquela que a fazia viajar pela neve distante, nesses momentos queria que chegasse logo a hora de dormir para poder ter novamente o pai que tanto amava. Quando começavam a gritar no quarto ao lado do seu escondia-se em baixo das cobertas e evocava o rosto do avô dizendo-lhe que eles estavam apenas cantando para um passarinho mal criado voltar para seu ninho, assim conseguia finalmente embarcar no sono profundo.


Aquela tarde fora estranha, era um sábado no qual o pai resolvera que todos deveriam ir passear para olhar vitrines, ela gostava muito de olhar as lojas com roupas bonitas em grandes bonecas pálidas, porém a mãe ficava impaciente pois provavelmente perderia algum programa interessante que passaria na televisão. Como em quase todas as ocasiões, e esta não era uma exceção, o pai dava a palavra final saíram todos no carro da família em direção ao centro comercial mais próximo. Ficaram horas olhando os brilhos e as luzes das lojas, entraram em apenas uma na qual a mãe comprou-lhe uma tiara vermelha para usar na festa de Ano Novo que se aproximava, ficara tão bem com seus cabelos escuros que pediu para não tirar e assim foi andando com seu adorno novo e um sorriso no rosto. Pararam para tomar sorvete e ainda ficariam muito tempo se não fosse a visível irritação da mãe com o programa, foi então que o pai decidiu que era hora de voltar para casa, entraram todos novamente no carro e se perderam no caminho de volta.


Os dedos já haviam adormecido com o frio do vidro, ela estava cansada, queria sua cama, mas seu pai não conseguia achar o caminho de volta e sua mãe não parava de falar e soluçar. Eles estavam brigando e passando por várias pontes enquanto tentavam não gritar para não assustar a criança no banco de trás. Mas ela sabia o que estava acontecendo e ela sabia que chamar seu avô em seus pensamentos não os faria parar. Eram tão bonitos os prédios iluminados e as pontes cheias de luzes rápidas daquela cidade e era tão triste o ar que se impunha dentro daquela gaiola de metal ambulante, ela não entendia como podiam coexistir coisas tão antagônicas em um mesmo espaço naquele exato momento. Sua pequena cabeça tão singelamente enfeitada tentava descobrir o momento em que aquele homem, seu pai, deixara de ser a pessoa que a colocava para dormir e que lhe dera sorvete há algumas horas. Passavam por uma ponte muito iluminada e grandiosa quando um tremor tomou conta do carro, ela, pequena, teve medo de cair, a mãe se calou e o pai jogou seus olhos sobre aquela mulher por um instante, um olhar triste e vazio que fez, finalmente, a pequena no banco de trás entender que entre seu amado pai e sua mãe todas as pontes haviam tremido tanto que acabaram por partir.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Última noite

Era difícil escolher que roupa usar para aquela ocasião, meia garrafa de uísque já havia sumido garganta abaixo e pelo menos um maço de cigarros já virara cinzas entre seus dedos. Era tão belo deitado, dormindo tranquilamente, que roupa ele deveria usar? Com certeza algo que combinasse com seus olhos claros e seus cabelos rebeldes, não muito formal. Jeans era uma boa opção. Mas não seria casual demais? Geralmente nestes eventos não se vê a parte de baixo do convidado de honra, onde deixara a calça? Lembrava vagamente que jogara suas roupas no chão, mas a lembrança estava tão imersa no êxtase que era difícil recordar exatamente onde as peças haviam caído. Tinha que parar de ter essas aventuras de uma noite, é claro que a satisfação era garantida, o prazer era intenso, mas no final só havia o vazio, ninguém para ligar, ninguém para abraçá-la durante o dia. Entretanto aquela noite fora diferente, algo vivo ainda respirava, os olhos claros não estavam completamente apagados, mas era loucura pensar assim. Ela sabia que não era possível. Como a cultura era mórbida pensou de repente, velar um corpo sem vida durante horas, chorar sobre a pele sem elasticidade, acariciar as mãos rígidas. Enterrar todas as lembranças, as flores. Esquecer as dívidas. Devia terminar logo, o tempo corria em sua cabeça dolorida, uísque de mais, cigarros de mais. Em menos de duas horas o caixão chegaria e o corpo devia estar pronto, vestido, maquiado, sem as marcas de batom pelo corpo, marcas vermelhas, ela adorava usar vermelho nos lábios. Ah, mas ele era tão sereno! Nem parecia... Será? Estava frio, isto podia dizer certamente, estivera frio durante o ato inteiro. Uma noite fria. Parou de pensar e começou a trabalhar, ajeitou os cabelos, deu cor as faces, vestiu o corpo inerte e restava apenas fechar-lhe os olhos, entretanto não tinha coragem de apagar a luz verde clara que a encarava, seria muita ousadia deixar o corpo com os olhos abertos? Eram tão lindos, não havia por que fechá-los para sempre. Ficou admirando o trabalho bem feito, despedindo-se daquele que mais a tocara, logo o levariam para longe de si, logo nunca mais o veria. Mas era assim com todos que passavam pelas suas mãos não entendia por que ele era diferente, aquele sentimento de culpa, era apenas mais um cadáver! O caixão chegou. O corpo se foi. E na sala ficou apenas ela, deitada, cansada, com os olhos de vidro encarando o teto.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

...

A chuva parou na caneca vazia. Vazia como estas mãos que escorregam pelos olhos úmidos, que imagem interessante aquela. Como pudera? Pequeninos cacos que vidro espalhados por todo chão, azulejos rubros de hemácias, onde estivera? Onde estivera sua consciência quando escorregaram os dedos firmes na pele branca? Os dedos? Não os dedos, os cacos. De seus olhos? Que importa! Agora tudo é névoa. Sem chuva, sem lágrimas... E o brilho? Que brilho? Besteiras folclóricas, não há brilho depois da escuridão, depois do vermelho latente. Há apenas o vácuo. E os sons? Estão chegando os sons do horizonte, posso vê-los voando pelo céu. Não se pode ver os sons querida... Claro que sim, eles estão lá, oscilando num turbilhão, tão bonito olhar daqui. O baixo tem a forma de um beijo. O beijo que nunca mais sentirá. Nunca? Não. Estranho, percebo agora que o grito de angústia é vermelho e voa tão mais rápido que o baixo...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Trecho a ninguém

O chá esfriara nos últimos dedos da caneca velha e manchada e as folhas continuavam em branco, a caneta jogada e destampada esfriara nos locais de pressão da mão humana e alva que por sua vez descansava no mogno sem brilho do tampo da mesa. "Os anos passam rápido sobre a planície ofuscante do espelho, cada dia reflete um homem que foge de si mesmo e esconde um mundo de escuridão suspenso no vácuo de uma carcaça epidérmica", não sabia exatamente quando havia lido, mas as palavras martelavam em sua cabeça e bloqueavam qualquer tentativa de criar. Estava velho, preso em suas escolhas solitárias feito uma pedra plantada no chão de cimento. Cada gota da chuva ácida de culpa acumulada durante anos corroía-lhe a pele, sua face deformou-se, virou um espectro, uma idéia horrenda dos sentimentos mais pesados e seu corpo não se movia, a mão grudara no mogno e assim permaneceu. Dia após dia, noite após noite e as sombras iam e vinham naquela imagem vazia de Ninguém deformado. Suas folhas em branco ecoavam em perfeita sintonia com aquelas palavras que não paravam de martelar...
Eu amo, sinto saudades, mas há algo quebrado que espeta minha carne. Olho para trás e não sei como cheguei até aqui, deste jeito, as portas se abrem, o vento sopra e eu estou ainda imóvel. Quero gritar, mas minhas boca está costurada, eu amo e as vezes não tenho coragem de esticar-me e envolver este amor com toda minha personalidade. Amo e choro quando estou distante, porém tenho medo de ser incompreendida, de ser motivo de temor. Será possível que talvez eu o assuste com todo sentimento adormecido que talvez volte a desenvolver? Os poemas no meio da noite, os sonetos com seu nome, as cartas... Será que ele seria capaz de esquecer minhas cartas? Tenho medo de escrevê-las. Tenho medo de explodir em emoções. Tenho medo de voltar a ser o que era.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Não me deixe...

Não me deixe, não aqui no vazio, nestas paredes brancas que ferem meus olhos. Não! Não me deixe sozinha com meus pensamentos atormentados, sozinha comigo, por favor, não me deixe! Não solte minha mão, pois meus dedos apodrecerão no ar da solidão. Não largue meu corpo na cama fria, pois minha pele quebrará como a camada frágil de gelo sobre a água. Não, por favor não me deixe! A rosa de minhas faces morrerá pálida sem seu toque, meus lábios secarão sem os seus, não me deixe no mar da desilusão, não me afogue em minhas lágrimas secas. Que será deste rosto morto em frente aos espelho? Como encarar os olhos de vidro partido, os cabelos opacos e a pele transparente? Que será do suspiro de vida melancólico, o último: Não me deixe!

domingo, 20 de junho de 2010

Nota

Fugir de tudo e de todos, correr descalça pelas calçadas da memória, esquecer apressada as lembranças quebradas. Chorar rápido as alegrias perdidas. Escapar das garras do futuro e esconder-se dos lábios do passado. Parar no meio fio do tempo para apenas contemplar o rosto confuso do presente e ouvir o choro triste das cordas que não mais querem cantar.


Estourar os tímpanos com notas distorcidas da minha música mal acabada. A guitarra jogada na areia movediça, engolida pela não vontade de criar. Os lápis e os papéis derretidos no ácido do bloqueio e o som de um osso torcido na angústia. Que voz estridente tem o nada que me traga vagarosamente!


Funde meu corpo no calor da desilusão, maculado pela culpa de ser tão passiva. Voam meus cabelos pelo céu rubro de meu sangue ralo derramado para suprir esforços fúteis. O supérfluo da minha existência é gritante, enquanto o sentido real da minha personalidade permaneceu mudo pelas décadas corridas em que pensei viver intensamente.